Para analistas, concessão é caminho sem volta.

15-08-2012 22:31

A concessão de importantes setores da infraestrutura brasileira para a iniciativa privada, anunciada nesta quarta-feira pela presidente Dilma Rousseff, é um caminho sem volta. A opinião é de cientistas políticos ouvidos pelo Portal da Band. Para eles, a nova postura administrativa do governo é fundamental para a modernização do país.

Por meio do Programa de Investimentos em Logística, o governo anunciou a concessão de 7,5 mil quilômetros de rodovias e 10 mil quilômetros de ferrovias para a iniciativa privada. Os investimentos, nos próximos 25 anos, vão somar R$ 133 bilhões, sendo que R$ 79,5 bilhões serão investidos nos primeiros cinco anos. Nas próximas semanas, serão anunciadas também concessões para portos e aeroportos.

O anúncio significa uma mudança de postura na forma como o governo federal lida com a questão da infraestrutura do país. Nos últimos anos, o grande destaque foram as obras tocadas pelo próprio poder público, por meio do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).

Infraestrutura deficiente - Para William Ricardo de Sá, analista político da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), a mudança de posição foi motivada pelos grandes problemas de infraestrutura no país. "O Brasil hoje é um ponto fora da curva. É preciso uma série de investimentos e o governo não consegue dar conta", explica. Por isso, ele acredita que as concessões continuarão a ser realizadas a médio e longo prazo. "É um caminho sem volta".

Ele aponta que, mesmo com o PAC, o investimento nestes setores ainda é muito pequeno. "Estudos apontam que o Brasil investe apenas 2,5% do PIB (Produto Interno Bruto) em infraestrutura. Este valor é insuficiente até mesmo para repor o que já existe. Somente para isso, seria preciso investir ao menos 3%".

Para o analista, o Brasil corre risco de sofrer um grande colapso de infraestrutura em um futuro próximo. "A energia é cara, as estradas são escassas e a telefonia é deficiente. Se o Brasil crescer um pouco mais do que o previsto, há risco de apagão em todos os setores".

A cientista política da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), Maria do Socorro Souza Braga, endossa a opinião e diz que o governo precisa ampliar as parcerias com o setor privado para atender à sua agenda política e econômica. "Só o dinheiro público não daria conta do que hoje o país necessita. Sozinho, o governo conseguiria atender a estas demandas somente a longo prazo".

Maria do Socorro Souza diz que a abertura de concessões é motivado pela urgência provocada pela proximidade da Copa do Mundo no Brasil, em 2014, e da Olimpíada de 2016, que acontecerá no Rio de Janeiro.

Para a analista, a linha de concessões deve ser mantida mesmo após a Olimpíada. "Se a economia estiver caminhando bem, a tendência é que esse trabalho continue. Ele só seria interrompido em caso de problemas de relacionamento com os investidores privados".

Reflexo político - Sá acredita que a criação de concessões ajudará a presidente Dilma Rousseff a reforçar o seu perfil de administradora. "Ela é vista como a gerente e, para continuar com esta imagem, precisa cuidar dos problemas de infraestrutura do país. E as concessões são importantes neste processo".

O analista diz que as medidas anunciadas têm "um lado indiscutivelmente político", mas que mostram a preocupação do governo em fazer uma boa administração. "Eles estão preocupados em fazer algo melhor para o país e isso é bom".

Ele também destaca que a política de concessões mostra o distanciamento entre o antigo programa político do PT e o governo. "São agendas diferentes, mas é um passo necessário, porque a Dilma tem de entregar algum resultado interessante, inclusive para lutar por um eventual segundo mandato".

Para Maria do Socorro, a política de concessões já vinha sendo amadurecida pelo PT há alguns anos. "Esta mudança não é recente, teve início já no segundo governo do ex-presidente Lula. É um assunto importante sobre o desenvolvimento do país".

Ela também diz que a mudança de posição não deve representar um prejuízo político para o PT nas próximas eleições. "O eleitor tende a agir de modo pragmático. Ele quer que sua vida melhore. Se o país evoluir, o brasileiro vai aprovar".

Fonte: Band.com / Usuport - Adaptado pelo Site da Logística.

 

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